O Espinho educacional e organizacional
Espinho que pinica, de pequeno já traz ponta
Prof. Dirceu Moreira publicado na revista Linha direta
Uma história sobre dor, aprendizado e liderança. Neste texto, o autor conduz uma reflexão sobre a busca por soluções prontas e o verdadeiro papel de quem ajuda — não oferecendo respostas, mas facilitando transformações.
Num certo condado corporativo educacional um de seus lideres que era “consultor de relacionamentos” tinha como hábito fazer suas caminhadas matinais de pés descalço ao longo de um caminho arenoso próximo à sua ala residencial. Esta atividade, quase que diária o ajudava na saúde aliviando as tensões do estressse. Certo dia porém, inadvertidamente pisou num espinho. Deu uma parada rápida, passou a mão no pé e, sentiu apenas uma leve dor local, mas não deu muita importância para o fato. Assim continuou sua caminhada sem dar a devida atenção àquela dorzinha. À medida que o tempo ia passando os sintomas foram piorando, só ai, é que resolveu procurar um médico e como de costume, acabou com três diagnósticos nas mãos. O primeiro examinou seu pé, olhou atentamente para o vermelhão e disse: meu jovem senhor, você tem um belo espinho espetado bem no meio do seu pé e esta inflamado, você precisa de cuidados, e prosseguiu no diagnóstico: blá, blá, bla
O segundo especialista, também após examinar o local disse: seu pé está muito inflamado, trata-se um espinho que penetrou obliquamente no meio do seu pé, provocando nesta região uma lesão em um dos nervos, que já se apresenta com formação de pus, e se isto não for removido dentro de três dias as coisas podem se complicar e blá, blá, blá…
O Terceiro diagnosticou: inchaço, inflamação, pus, febre e ainda identificou que o espinho era de laranjeira, portanto muito perigoso, e terminou a consulta com um sermão recomendando-o que procurasse andar e fazer suas caminhadas de tênis ou qualquer outro tipo de calçado para não acontecer mais estes incidentes, afinal ele não era mais nenhuma criança que desconhecesse estes perigos.
No dia seguinte, um de seus grandes amigos ao vê-lo mancando, perguntou:
_ O que aconteceu com você?
_ Um maldito espinho!
_ Se o seu problema é espinho eu conheço um especialista, que vai resolver esta situação.
_ Por favor, não me venha com mais um destes pseudo “gurus” .
_ Não. Pode ficar tranqüilo, aqui está o nome e endereço do sr. Pinho.
No dia seguinte o consultor de relacionamento, chegou na casa do sr. Pinho mancando, pé inchado, dolorido, febre e com inflamação e, mal podia pisar no chão.
O especialista o examinou rapidamente, e constatou como os anteriores, que se tratava de um espinho. Pegou uma pinça e puxou o espinho de uma só vez.
O homem não gritou, ele uivou de tanta dor. além dos palavrões que proferiu.
A partir daquele momento a dor diminuiu imediatamente, logo depois os outros sintomas foram amenizando, e em pouco tempo o sujeito estava curado e de volta à sua vida normal.
Intrigado, ele voltou ao sr. Pinho para tirar uma dúvida.
_Sr. Pinho, um dos especialistas me deu um sermão, e em outras palavras me chamou de irresponsável, o que o senhor acha?
_Eu não acho nada, eu só resolvo uma parte do problema o outro é com você!
_Poderia explicar melhor? Você não é um “guru” nestes assuntos?
_Esse é o problema de se querer respostas e soluções prontas para tudo, como se tudo na vida fosse um receituário. Os verdadeiros GURUS, não trazem o bolo pronto, no máximo poderá lhe trazer os ingredientes.
Por vezes nem trazem, porque o outro já os tem dentro de si, ele apenas facilita para que os encontre. Assim fazem os verdadeiros lideres, professores, políticos, religiosos e etc.
_Mas não é esse o seu papel, interrogou o consultor ou coaching?
_Não! Eu apenas retiro espinhos. Eu não os faço e nem os coloco nos caminhos das pessoas. Em determinadas situações eu apenas facilito a retirada deles, porque os espinhos nos estimulam buscar soluções para os problemas. Que espécie de coacher é você? Como vai ajudar pessoas a resolver problemas quando fica o tempo todo querendo saber de respostas prontas?
Para um coaching de primeira viagem, eu preciso dizer apenas algumas coisas: Os pés e os espinhos têm muitas coisas em comum. Um representa a busca, as metas, os objetivos, o outro os obstáculos. Qualquer um que for eliminado, não haverá mais caminhada. Continue caminhando, porque os espinhos mais difíceis de retirar precisam de um bisturi psicológico, porque estão tão profundamente internalizados nas pessoas que irá exigir de você meu jovem, bastante competência.
Para você se tornar um verdadeiro, coacher, embora eu prefira o termo líder, você irá precisará desenvolver três atributos: transformar-se, superar seus obstáculos e transcender seus objetivos, ir do Ter para o SER. Pense nisso: os espinhos das árvores doem no corpo, mas os espinhos do ser humano doem na alma. Eles são mais comuns do que você possa imaginar e se disfarçam facilmente, mas a dor é a mesma. Eles estão nas má-águas, medos, frustrações, ressentimentos, crenças negativas, baixa estima, nos sete pecados capitais e permeiam os pântanos das relações humanas nas escolas e empresas. A solução não está em mim, está em você. Não queira ensinar quando não sabes aprender. Não queira liderar pessoas quando não lideras a ti mesmo. Não comandes se não consegues obedecer a ti mesmo. Humildade meu jovem. Humildade, humildade, só assim estará aberto à doutrina do coração e pensará com ele, e também da doutrina da mente e aprenderás a sentir com ela. Seja flexível.
Termino este artigo citando meu mestre: “O verdadeiro homem é aquele que não fica radicado nas mesmas idéias” .Prof. Henrique José de Souza.
Não tente jamais evitar a mudança, porque na pior das hipóteses, infalivelmente ela o tornará um estatua de sal. O universo é pleno de mudança. O verdadeiro líder, aquele tirador de espinhos muda na própria mudança. Educadores retiram espinhos todos os dias.
Prof. Dirceu Moreira – 12/46 – Psicólogo, psicoterapeuta, pedagogo, Dr. honoris causa em psicologia das relações humanas, palestrante, consultor em potenciais humanos na educação e RH, autor de 20 livros.
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